Mamihlapinatapai

2019 -Instituto Cervantes-São Paulo

1,60mx2,30mx0,80m

Fogo extinto


O vocábulo “Mamihlapinatapai”, originário da língua do povo indígena selknam, também conhecido como ona, da região patagônica do sul da Argentina e do Chile, incluindo as ilhas da Terra do Fogo, é o título da instalação do artista plástico Juan Ojea. A palavra, em tradução livre, significa "Olhar um para o outro, esperando que alguém se ofereça para fazer algo que ambas as partes desejam muito, mas que não estão dispostas a fazer".


Valendo-se de diversos materiais, como madeira, pedra, papel, tecidos e fios diversos, a obra traz quatro círculos, sendo que dois representam o divino, o céu, e dois, o terreno. Os localizados na parte inferior têm bases em ouro, indicando a febre em busca do metal na região no século XIX. Sobre elas, há, em um círculo, pedras; e, no outro, uma fogueira, já que o nome Terra do Fogo vem justamente do hábito do povo de acender fogueiras, que, além de enfrentar o frio, possuíam aspectos simbólicos, culturais e de comunicação.


Ligando os círculos das partes superior e inferior, há uma coluna de fotos do antropólogo Martin Gusinde, realizadas entre 1918 e 1924, quando o povo Selknam, um dos últimos grupos nativos na América do Sul a ser localizado, estava próximo da extinção, dando fim a uma língua sutil, de difícil pronúncia e conceitos, como ilustra a palavra que intitula a instalação.


Ojea homenageia, portanto, uma cultura que ganhou visibilidade graças ao missionário e linguista britânico Thomas Bridges, que conviveu com os nativos por volta de 1860, criando inclusive um dicionário Selknam/Inglês. Nesse contexto, o fogo extinto na base do trabalho alerta para a perda que cada cultura extinta traz para a América Latina e para a humanidade.


Oscar D’Ambrosio é jornalista pela USP, mestre em Artes Visuais pela Unesp, graduado em Letras (Português e Inglês) e doutor em Educação, Arte e História da Cultura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.